domingo, 2 de outubro de 2016

diário

[inscrevo em cada lembrança-experiência um cheiro de domingo, de tarde de sábado, ou de café matinal. deixo assim espraiado pelo corpo dos dias os vestígios de tantos doces e salgados, amargos e salobros que são juntos algo como um esboço de vida. talvez a própria vida.  notivago e incerto tomo nota de cada órgão, sussurro todo o toque. no contorno e nos desencontros de cada balanço cabisbaixo ou recusa altiva é meu pulso o diário ponteiro de um relógio feito não de números, mas de silêncios e segredos. meu corpo-palavra é pagina sempre em desmonte. quisera eu ser falante e leitor desses alfabetos que tanto transcrevo e vivo e tão pouco entendo. queria ter o ouvido ou a astúcia de falar a ĺingua dos gatos, dos becos, das noites, a língua da gota que persistente cai e desenha rios oceanos mares esgotos e lágrimas sem fim. quisera eu ter uma língua mais apta a escrever nessas páginas amontoadas uma palavra-casa e nela morar, viver, ali onde pudesse junto a uma palavra-raiz me instalar e romper]

(02.10.2016)

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