sábado, 26 de dezembro de 2015

não cobrarei abraços
as palavras semeadas
ou beijos esquecidos:

futuro fatigado
levo apenas o que é meu
- e mais nada!

à promessa declinada
(lágrima a lágrima)
a dádiva será cobrada

(26.12.2015)

um dia serei árvore

"sou uma árvore"
repito desde menino
 - os pés descalços sobre a terra,
saúdo a passos leves
o firme e o firmamento.

remorso já pequeno
tal desejo inconfesso
de ser árvore.

para ser, renuncio à caminhada
- privilégio e desatino.
me invento movimento,
fixo raiz em mim e de mim
exploro e penetro
o ventre escuro e frio da terra
com meus dedos em silêncio.

troco todos os olhos
desmonto a íris e me semeio

tronco
pele

arremedo sentimental
cicatriz e marca de amantes.

E de todo o resto, tudo que neste corpo
ora sobra, ora excede, ora não presta
que se faça flor, que se faça folha
milhões de singelas folhas
chorando orvalho
caindo outonos

em novo corpo
eu -emente

a dádiva renovada
de conter em si o mundo
                 e fazer-se grande

aberto em abraço
desabraço
desabrocho

um dia serei árvore
e juntos floresta

(24,12.2015)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

tua presença

tua presença é dia de sol
ainda que
          contigo
meu corpo
       desfaça
             em chuva
e eu deseje apenas a neblina
oculta em desejo e segredo.
ali envolvo o teu em mim
enlaço teu corpo ao meu
como quando na tua imensidão
em toque compassado, ritmado
                me chegas sorrindo
                os olhos esgotados
                     (de tanto riso)
                os pés apressados
              e me contornando, desde trás, o beijo se demora

E quando me tocas
vacilo ao vento, estremeço
derreto pedaço a pedaço inteiro
chuva e suor a jorrar
semeando graça sobre a terra cultivada

tua presença é dia de sol
norte para meus passos
                 é o calor
candeia sentimental
em amontoado de ausências
e falhas

(14.12.2015)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

de costas

eu vou escrever um poema em Tuas costas
desenhar Teu corpo
Teu dorso
meu desejo

desfazer aos poucos
o frêmito dos pelos

vou escrever um poema no Teu corpo
e recitá-lo por inteiro

do cabelo aos pés
fazer rimar teus joelhos

em Tua boca entregar
verso a verso
no Teu hálito recobrar
retraçar do meu reflexo

(09.12,2015)

intento

"porque só escrevemos sobre aquilo
que se encravou em nossa memória"
João Anzanello Carrascoza


invento algarismos
algoritmos
     dispersos
na tentativa vã
de contabilizar
algum beijo roubado

desenho  transcrevo
palavras
     soltas
qualquer linguagem
inexata
mas nenhuma descreve
tua língua rara

pequeno ou distante
inocência ou engodo
quem sabe?

como dizer teu olho castanho
teu lábio corado
teu corpo, o meu

como dizer
meu ser
inteiro

despedaçado?

(09.12.2015)
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