sexta-feira, 30 de setembro de 2016

cartografia

Muito cuidado
meu corpo é mapa
machucado e ferido,
tecido em linho fino
e de trança já rasgada.
nele as bolhas do passado
reúnem tanto do riso
quanto da lágrima.


meu corpo é fluxo
caudaloso
tenra torrente
encontro e escarpa.
Muito cuidado
ele sangra e canta
é trilha repleta de visagem.
Muito cuidado.

(Brasília, 30.09.2016)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

cabelo

Já tarde desfiz-me do brilho das unhas que escondiam meus dedos, deitei as roupas ao chão e ali desnudo, frente ao espelho, planejei com desatenção meu corte desenhando sobre o tecido do copo uma geografia que supunha linhas, meridianos, escolhas, decisões. Meus instrumentos, uma máquina de cortar cabelos, um pente, uma escova e toda a precariedade de uma pequenez humana. Lavei os cabelos em lágrima e riso do ano corrido e untei tudo em graça e sorte. Fiz de cada fio um bilhete em relicário dos dias. Ao secar, revia correr, entre o cristal e o reflexo de um eu em desmonte, os pedaços, cheiros e cores dos dias. E ao vê-los, fio a fio, me despedia e retirava aquilo tudo que superava o brilho e a agonia necessários à vida. Os fios caíam e os dias, como promessa de um novo ano se anunciavam à minha frente, como sorriso de criança. Os dedos ali expostos e os fios da memória com condutores de lembranças me advertiam entre pretos, brancos e cinzas a necessidade de atenção e cuidado ao tempo. As madeixas ali dispersas entre o ralo e o chão, as tramas, agora aparadas, mas há pouco dilaceradas denunciavam a minha suspeita: nada escapa.

sábado, 26 de dezembro de 2015

há uma
lasca
(e tantas lágrimas)
de poesia
em cada tijolo
daquela
construção.

há tanto
e tudo
ou nada
- agora-
nesta 
canção.

queira,
faz favor,
esvaziar 
o poema
desmontar a canção
só me interessa
o verso-tijolo
da construção.

(26.12.2015)
não cobrarei abraços
as palavras semeadas
ou beijos esquecidos:

futuro fatigado
levo apenas o que é meu
- e mais nada!

à promessa declinada
(lágrima a lágrima)
a dádiva será cobrada

(26.12.2015)

um dia serei árvore

"sou uma árvore"
repito desde menino
 - os pés descalços sobre a terra,
saúdo a passos leves
o firme e o firmamento.

remorso já pequeno
tal desejo inconfesso
de ser árvore.

para ser, renuncio à caminhada
- privilégio e desatino.
me invento movimento,
fixo raiz em mim e de mim
exploro e penetro
o ventre escuro e frio da terra
com meus dedos em silêncio.

troco todos os olhos
desmonto a íris e me semeio

tronco
pele

arremedo sentimental
cicatriz e marca de amantes.

E de todo o resto, tudo que neste corpo
ora sobra, ora excede, ora não presta
que se faça flor, que se faça folha
milhões de singelas folhas
chorando orvalho
caindo outonos

em novo corpo
eu -emente

a dádiva renovada
de conter em si o mundo
                 e fazer-se grande

aberto em abraço
desabraço
desabrocho

um dia serei árvore
e juntos floresta

(24,12.2015)
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